O evento é o I Fórum de Segurança Regional e Contraterrorismo – O Nexo Terror-Crime. Não se trata de um seminário plural sobre segurança pública ou contraterrorismo. O programa foi estruturado em torno de uma única hipótese: a existência de um “nexo terror-crime” envolvendo terrorismo internacional, organizações criminosas brasileiras e financiamento ilícito. Todas as mesas partem dessa premissa; nenhuma parece destinada a discutir suas limitações conceituais, jurídicas ou empíricas.
Isso torna particularmente relevante investigar quem são os organizadores, os palestrantes e suas redes institucionais.
À primeira vista, trata-se apenas de mais um seminário promovido na Câmara dos Deputados. Um olhar mais atento, porém, revela algo diferente.
O I Fórum de Segurança Regional e Contraterrorismo – O Nexo Terror-Crime foi organizado em torno de uma narrativa muito específica: a de que organizações criminosas brasileiras, especialmente PCC e Comando Vermelho, caminham para ser reconhecidas como organizações terroristas, articuladas a redes internacionais de financiamento ilícito, grupos extremistas e ameaças híbridas.
Não há, na programação, uma única mesa destinada a discutir a controvérsia dessa tese.
Todos os painéis caminham na mesma direção.
Isso torna indispensável investigar quem são seus formuladores.

A organizadora
A coordenação do evento está a cargo da consultora legislativa do Senado Clarita Costa Maia.
A primeira pergunta jornalística é simples:
- qual sua produção acadêmica sobre terrorismo?
- Em quais projetos legislativos atuou?
- Que grupos de pesquisa integra?
- Qual sua participação na elaboração de propostas de alteração da Lei Antiterrorismo?
Responder a essas perguntas ajuda a compreender se o fórum nasce de um esforço técnico do Parlamento ou da articulação de uma determinada corrente de pensamento em segurança pública.
O núcleo ideológico
O programa reúne um conjunto de nomes que, há anos, defendem uma ampliação da legislação antiterrorismo.
Entre eles destacam-se:
- Marcos Degaut, ex-integrante do governo Jair Bolsonaro, ligado à área de Defesa e Segurança Nacional.
- Leonardo Coutinho, diretor do Center for a Secure Free Society (SFS), organização sediada em Washington que há anos sustenta a tese da atuação do Hezbollah na Tríplice Fronteira e da convergência entre organizações criminosas latino-americanas e terrorismo internacional.
- Emanuele Ottolenghi, pesquisador da Foundation for Defense of Democracies (FDD), um dos think tanks norte-americanos mais ativos na defesa de sanções ao Irã e no monitoramento do Hezbollah na América Latina.
Esses três nomes compartilham uma linha analítica semelhante: a expansão do conceito de terrorismo para abranger redes criminosas tradicionais.
Não significa que suas teses sejam incorretas.
Significa apenas que representam uma corrente específica do debate internacional.
Curiosamente, nenhuma voz crítica dessa abordagem aparece na programação.
A ausência do contraditório
Em qualquer seminário acadêmico seria esperado encontrar pesquisadores especializados em:
- direitos fundamentais;
- direito penal;
- sociologia da violência;
- estudos críticos sobre terrorismo;
- relações internacionais.
Nenhum painel reúne especialistas conhecidos por defender posições divergentes.
Não há representantes da academia que questionem, por exemplo:
- a equiparação entre crime organizado e terrorismo;
- os efeitos dessa classificação sobre direitos individuais;
- experiências internacionais malsucedidas;
- riscos de ampliação excessiva do poder estatal.
O fórum apresenta consenso onde existe intenso debate internacional.
A presença do Ministério Público e do Judiciário
O evento reúne promotores, procuradores e magistrados diretamente envolvidos no combate ao crime organizado.
Entre eles:
- Carlos Bruno Gaya (GAECO);
- Lucas Gualtieri (Ministério Público Federal);
- Alexandre Abrahão (Justiça do Rio de Janeiro);
- Olavo Pezzotti;
- Eduardo Roos Neto.
São profissionais de reconhecida atuação institucional.
Entretanto, praticamente todos participam do mesmo lado do debate: o do fortalecimento dos instrumentos repressivos.
Outra vez, não há contraponto.
O papel dos think tanks
Talvez o aspecto mais interessante da programação seja a presença de organizações internacionais.
O Center for a Secure Free Society tornou-se conhecido por produzir estudos aproximando:
- Hezbollah;
- Irã;
- crime organizado latino-americano;
- PCC;
- Comando Vermelho.
Já a Foundation for Defense of Democracies exerce forte influência sobre setores da política externa e de segurança dos Estados Unidos, especialmente em temas relacionados ao Oriente Médio.
A pergunta que merece investigação é:
até que ponto essas formulações vêm influenciando a construção da política de segurança brasileira?
As perguntas que permanecem
O evento levanta uma série de questões que extrapolam seu conteúdo formal.
Quem financiou sua realização?
Quais entidades privadas participaram da organização?
Quem sugeriu os palestrantes?
Há apoio de embaixadas, fundações ou think tanks internacionais?
Existe articulação com projetos legislativos em tramitação no Congresso?
Algum dos participantes colaborou na redação dessas propostas?
Essas respostas talvez sejam mais importantes do que as palestras propriamente ditas.
LEIA TAMBÉM:
Marcus
29 de julho de 2026 5:51 pmIsto tem cara bode, chifre de bode, pé de bode. Só pode ser bode, ou então ,o diabo. Sigamos o dinheiro, para saber qual é.
Rose Laura
30 de julho de 2026 10:54 amPara clarear ainda mais as sombras dos processos que o Nassif denunciou em sua matéria, é interessante aprofundar o assunto através de um mapeamento de como se dá a “captura” desses atores por pautas e agendas completamente alheias aos interesses nacionais:
Mapeamento Estrutural e operacional dos principais Think Tanks baseados em Washington (e suas ramificações no Hemisfério Norte) que produzem a literatura, os relatórios e as diretrizes doutrinárias sobre o crime organizado transnacional no Brasil e na América Latina.
A análise a seguir desvela como essas instituições operam como o “braço intelectual” da projeção de poder dos EUA, formulando os conceitos que mais tarde são convertidos em pressões legislativas e operacionais em países periféricos.
Mapeamento Estrutural de Think Tanks: O Nexo Doutrinário da Segurança Hemisférica
No ecossistema de Washington, os think tanks não são meros centros de pesquisa acadêmica neutra. Eles funcionam como nódulos de articulação entre o “Estado Profundo” (Deep State) americano (Pentágono, CIA, DoJ, Departamento de Estado), o complexo industrial-militar e o setor financeiro privado. Sua função primordial na Guerra Híbrida é a gestão de percepções e a fabricação de consensos técnicos. Eles criam a base conceitual justificadora para intervenções jurídicas, sanções econômicas ou operações militares sob o manto da legalidade internacional.
Abaixo, dissecamos os quatro principais atores que historicamente pautam a agenda de segurança pública e contraterrorismo para o Brasil.
1. Center for Strategic and International Studies (CSIS)
O CSIS é uma das instituições mais influentes do mundo em estratégia militar e segurança nacional. Financiado majoritariamente por gigantes da indústria de defesa (como Lockheed Martin, Boeing e Northrop Grumman) e por agências governamentais, o CSIS é o principal formulador da transição doutrinária que deslocou o foco da “Guerra às Drogas” tradicional para o combate às “Organizações Criminosas Transnacionais como Ameaças Assimétricas à Segurança Nacional”.
O Programa para as Américas e a Doutrina para o Brasil
O CSIS possui um departamento específico focado na América Latina que monitora sistematicamente o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as dinâmicas da Amazônia. Seus relatórios defendem a tese de que o crime organizado na região evoluiu para além de um problema de polícia e alcançou o status de ameaça de governança.
Mecanismos Operacionais de Influência
Internacionalização da Amazônia: O CSIS tem publicado uma série de relatórios focados no “eco-crime” e no garimpo ilegal na Amazônia, associando explicitamente essas atividades ao financiamento de facções criminosas e à corrupção estatal de alto nível. O argumento central é que o Estado brasileiro carece de capacidade operacional isolada para proteger o bioma, o que justifica a criação de forças-tarefa multinacionais e sistemas de monitoramento geoespacial controlados por empresas estrangeiras.
A Tese do “Nexo de Convergência”: Pesquisadores do CSIS publicam artigos frequentes apontando que grupos como o PCC mantêm canais de lavagem de dinheiro e contrabando com atores do Oriente Médio (como o Hezbollah na Tríplice Fronteira) e com cartéis mexicanos. Ao amalgamar o crime organizado brasileiro ao terrorismo do Oriente Médio e aos cartéis hiper-violentos do México, o CSIS fornece a justificativa teórica exata para que o Congresso dos EUA e o Congresso brasileiro unifiquem suas legislações sob o rótulo de “Contraterrorismo”.
2. Atlantic Council (e o Digital Forensic Research Lab – DFRLab)
O Atlantic Council atua como o braço ideológico da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Washington. Ele se diferencia do CSIS por focar intensamente na governança digital, nas redes de informação e na identificação de “ameaças híbridas” que possam desestabilizar as democracias ocidentais alinhadas aos EUA.
O Papel do DFRLab na Soberania Digital Brasileira
O Digital Forensic Research Lab (DFRLab) é a ponta de lança do Atlantic Council no monitoramento de redes sociais e fluxos de desinformação global. No Brasil, sua atuação tornou-se altamente visível e agressiva a partir de 2018.
Parcerias com Redes Sociais e Tribunais: O DFRLab estabeleceu parcerias diretas com plataformas de Big Tech (como a Meta/Facebook) e com autoridades do judiciário brasileiro para atuar como “auditor” de discursos políticos nas redes sociais. Sob o pretexto de combater a desinformação, o extremismo político e os ataques às instituições democráticas, o DFRLab atua na definição de algoritmos de censura e na derrubada de perfis.
A Armadilha do Conceito de Extremismo: Academicamente, a atuação do DFRLab cria uma perigosa zona cinzenta: ao equiparar discursos políticos dissidentes ou críticas ácidas às instituições a “táticas de desestabilização híbrida ou extremismo”, o think tank fornece o arcabouço para a criminalização do debate político. Essa dinâmica conecta-se ao debate da Lei Antiterrorismo no Brasil. Se a definição de “terrorismo” ou “ato preparatório de terrorismo” for expandida para incluir o ambiente digital (como o financiamento de atos interpretados como golpistas), o Estado brasileiro importa uma ferramenta de controle social desenhada em Washington.
3. American Enterprise Institute (AEI) e a Heritage Foundation
O AEI e a Heritage Foundation representam o núcleo do pensamento neoconservador e da extrema-direita em Washington. Eles são financiados por fundações familiares bilionárias e por setores do agronegócio e do petróleo norte-americano.
A Doutrina do Inimigo Interno e a Classificação de FTOs
Se o CSIS e o Atlantic Council operam em uma linguagem mais técnica e institucional (atraente para burocratas de centro-esquerda e liberais), o AEI e a Heritage Foundation utilizam uma abordagem de segurança dura, militarizada e ideologicamente polarizada.
Pressão por Inclusão na Lista de FTO: Foram pesquisadores seniores vinculados a esses think tanks (como analistas focados em segurança hemisférica) que formularam as minutas e os argumentos que embasaram os pedidos de parlamentares do Partido Republicano no Congresso dos EUA para que o PCC e o Comando Vermelho fossem oficialmente declarados como Foreign Terrorist Organizations (FTOs).
A Justificativa para a Intervenção: O AEI defende abertamente que governos latino-americanos de esquerda ou de centro-esquerda que não adotam políticas de encarceramento em massa e militarização ostensiva (como o modelo implementado por Nayib Bukele em El Salvador) são “Estados cúmplices ou falidos”. A literatura produzida por essas instituições justifica que, diante da “fraqueza institucional” do Brasil em conter o PCC, os EUA têm o direito legítimo de aplicar sanções econômicas severas, cortar linhas de crédito internacional e autorizar suas agências de inteligência a operar clandestinamente no território nacional para proteger a segurança do próprio hemisfério norte.
4. RAND Corporation
A RAND Corporation é, historicamente, o think tank de pesquisa e desenvolvimento oficial das Forças Armadas dos EUA. Criada originalmente pela Força Aérea americana após a Segunda Guerra Mundial, a RAND é a criadora dos modelos matemáticos, dos jogos de guerra (war games) e dos conceitos de redes descentralizadas que moldaram a estratégia militar ocidental.
A Doutrina da “Guerra em Redes” (Netwar) aplicada ao Brasil
A contribuição mais profunda da RAND para o cenário atual da segurança pública na América Latina foi o desenvolvimento do conceito de Netwar (Guerra em Redes), proposto pelos analistas John Arquilla e David Ronfeldt.
O Diagnóstico sobre o PCC: A RAND aplica o conceito de Netwar para demonstrar que facções como o PCC não são máfias piramidais tradicionais (como a máfia siciliana), mas redes horizontais, flexíveis, descentralizadas e com alta capacidade de regeneração tecnológica e financeira.
A Solução Proposta (A Destruição das Salvaguardas do Estado de Direito): Segundo os manuais da RAND, redes descentralizadas não podem ser combatidas com os métodos tradicionais do devido processo legal. Para derrotar uma Netwar, o Estado precisa se converter em uma “rede de contra-ataque”. Isso exige:
A eliminação de barreiras burocráticas entre inteligência militar e policiamento civil (militarização total da segurança pública).
O compartilhamento irrestrito de dados biométricos e financeiros em tempo real com agências estrangeiras (derrubada do sigilo bancário e de dados sem ordem judicial prévia).
A adoção de legislações de exceção que permitam o isolamento absoluto de lideranças e o uso de interceptações em massa de comunicações.
O Fluxo de Transposição Doutrinária: Como a Ideia Vira Lei no Brasil
Compreendidos os atores, a análise acadêmica exige desvelar o mecanismo de transmissão — ou seja, como um relatório publicado em inglês em Washington se transforma em um Projeto de Lei debatido na Câmara ou no Senado em Brasília. O fluxo operacional segue quatro etapas interdependentes:
│ (Produção de relatórios técnicos e dados assimétricos)
▼
[Seminários e Fóruns Internacionais]
│ (Atração de juízes, procuradores e consultores legislativos brasileiros)
▼
[Inserção de Cláusulas em Projetos de Lei Nacionais]
│ (Tentativa de reformar leis como a Lei Antiterrorismo)
▼
[Abertura de Precedente para a Extraterritorialidade]
│ (Perda do monopólio da força e quebra da soberania nacional)
A Captura de Quadros Técnicos (Burocracia de Estado): Os think tanks e universidades parceiras (como Georgetown) oferecem bolsas de estudo, convites para painéis e cursos de curta duração para o topo da pirâmide burocrática brasileira: jovens juízes federais, procuradores da república, delegados da Polícia Federal e consultores legislativos do Congresso. Nesses espaços, esses profissionais são expostos à doutrina do “nexo terror-crime” sob uma roupagem de “modernização e cooperação técnica”.
A Fabricação do Alarme Social e Legislativo: Ao retornarem ao Brasil, esses quadros técnicos utilizam sua legitimidade institucional para organizar eventos no parlamento (como o I Fórum de Segurança Regional e Contraterrorismo mencionado nas denúncias do GGN). O objetivo desses eventos é sensibilizar a classe política (geralmente leiga em geopolítica profunda) de que o ordenamento jurídico nacional está “desatualizado” frente às ameaças globais.
A Introdução de “Cápsulas de Exceção” Jurídica: Sob a assessoria técnica desses quadros, são redigidos Projetos de Lei ou Emendas a leis existentes (como as recorrentes tentativas de alteração da Lei 13.260/2016). Pequenas alterações textuais — como incluir o termo “atos de domínio territorial cometidos por facções” sob o guarda-chuva de atos terroristas — são inseridas silenciosamente.
O Gatilho para a Perda de Soberania (A Armadilha Perfeita): Uma vez aprovada a lei no Brasil equiparando o crime comum ao terrorismo, consagra-se a Dupla Incriminação. Se o Brasil reconhece formalmente que o PCC pratica atos terroristas e os EUA também o fazem, os mecanismos internacionais de bloqueio de bens, extradição sumária, quebra de sigilo tecnológico (como acesso a servidores de Big Tech) e, no limite, o uso de forças especiais para captura em solo estrangeiro passam a operar sob um manto de legalidade compartilhada. O Estado brasileiro, voluntariamente, abdica de seu monopólio da força e entrega a chave da sua soberania jurisdicional.
Conclusão
A investigação detalhada dos think tanks baseados em Washington demonstra que o perigo à soberania brasileira não se manifesta por meio de ameaças explícitas de invasão, mas através da colonização conceitual e jurídica do aparato de Estado. A tentativa de enquadrar o crime organizado brasileiro na Lei Antiterrorismo é a transposição exata da literatura produzida pelo CSIS, RAND, AEI e Atlantic Council.
Nesse contexto, figuras posicionadas na burocracia de bastidores do Poder Legislativo funcionam como os operadores necessários para traduzir essas diretrizes estrangeiras em textos normativos nacionais. O escrutínio público e o cancelamento de fóruns e eventos dessa natureza, evidenciam que a exposição do método é a principal ferramenta de autodefesa institucional que o país possui contra os vetores da Guerra Híbrida.
a.ali
29 de julho de 2026 6:36 pmAvançam em todas as frentes, estão mt bem articulados e nós só observando e sem ação…
emerson57
29 de julho de 2026 8:21 pmLula (ex presidente) esteve preso (numa saleta da polícia) por 580 dias por ser dono de um apartamento que nunca foi dele.
Midia, Justiça, partidos e o escambau acharam lindo. Ato jurídico perfeito, disseram.
Esse seminário lança as bases para prender Lula e demais petistas por qualquer alegação.
Embasa a convocação de tropas do xerife do mundo para garantir o domínio dos homens de bem e prender / sequestrar os narcomunisterroristas que destroem a democracia do Brasil e do mundo.
Há precedentes.
A Venezuela é logo ali.
Lima
29 de julho de 2026 8:44 pmDevido a repercussão deste artigo do Nassif, a Câmara dos Deputados ocultou a programação
Pois é,
O povo é manipulado para eleger seus algozes inimigos da democracia, escravistas, coloniais e inimigos da população e da soberania
Até quando ?
Rose Laura
30 de julho de 2026 3:38 amPara clarear ainda mais as sombras dos processos que o Nassif denunciou em sua matéria, é interessante aprofundar o assunto através de um mapeamento de como se dá a “captura” desses atores por pautas e agendas completamente alheias aos interesses nacionais:
Mapeamento Estrutural e operacional dos principais Think Tanks baseados em Washington (e suas ramificações no Hemisfério Norte) que produzem a literatura, os relatórios e as diretrizes doutrinárias sobre o crime organizado transnacional no Brasil e na América Latina.
A análise a seguir desvela como essas instituições operam como o “braço intelectual” da projeção de poder dos EUA, formulando os conceitos que mais tarde são convertidos em pressões legislativas e operacionais em países periféricos.
Mapeamento Estrutural de Think Tanks: O Nexo Doutrinário da Segurança Hemisférica
No ecossistema de Washington, os think tanks não são meros centros de pesquisa acadêmica neutra. Eles funcionam como nódulos de articulação entre o “Estado Profundo” (Deep State) americano (Pentágono, CIA, DoJ, Departamento de Estado), o complexo industrial-militar e o setor financeiro privado. Sua função primordial na Guerra Híbrida é a gestão de percepções e a fabricação de consensos técnicos. Eles criam a base conceitual justificadora para intervenções jurídicas, sanções econômicas ou operações militares sob o manto da legalidade internacional.
Abaixo, dissecamos os quatro principais atores que historicamente pautam a agenda de segurança pública e contraterrorismo para o Brasil.
1. Center for Strategic and International Studies (CSIS)
O CSIS é uma das instituições mais influentes do mundo em estratégia militar e segurança nacional. Financiado majoritariamente por gigantes da indústria de defesa (como Lockheed Martin, Boeing e Northrop Grumman) e por agências governamentais, o CSIS é o principal formulador da transição doutrinária que deslocou o foco da “Guerra às Drogas” tradicional para o combate às “Organizações Criminosas Transnacionais como Ameaças Assimétricas à Segurança Nacional”.
O Programa para as Américas e a Doutrina para o Brasil
O CSIS possui um departamento específico focado na América Latina que monitora sistematicamente o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as dinâmicas da Amazônia. Seus relatórios defendem a tese de que o crime organizado na região evoluiu para além de um problema de polícia e alcançou o status de ameaça de governança.
Mecanismos Operacionais de Influência
Internacionalização da Amazônia: O CSIS tem publicado uma série de relatórios focados no “eco-crime” e no garimpo ilegal na Amazônia, associando explicitamente essas atividades ao financiamento de facções criminosas e à corrupção estatal de alto nível. O argumento central é que o Estado brasileiro carece de capacidade operacional isolada para proteger o bioma, o que justifica a criação de forças-tarefa multinacionais e sistemas de monitoramento geoespacial controlados por empresas estrangeiras.
A Tese do “Nexo de Convergência”: Pesquisadores do CSIS publicam artigos frequentes apontando que grupos como o PCC mantêm canais de lavagem de dinheiro e contrabando com atores do Oriente Médio (como o Hezbollah na Tríplice Fronteira) e com cartéis mexicanos. Ao amalgamar o crime organizado brasileiro ao terrorismo do Oriente Médio e aos cartéis hiper-violentos do México, o CSIS fornece a justificativa teórica exata para que o Congresso dos EUA e o Congresso brasileiro unifiquem suas legislações sob o rótulo de “Contraterrorismo”.
2. Atlantic Council (e o Digital Forensic Research Lab – DFRLab)
O Atlantic Council atua como o braço ideológico da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Washington. Ele se diferencia do CSIS por focar intensamente na governança digital, nas redes de informação e na identificação de “ameaças híbridas” que possam desestabilizar as democracias ocidentais alinhadas aos EUA.
O Papel do DFRLab na Soberania Digital Brasileira
O Digital Forensic Research Lab (DFRLab) é a ponta de lança do Atlantic Council no monitoramento de redes sociais e fluxos de desinformação global. No Brasil, sua atuação tornou-se altamente visível e agressiva a partir de 2018.
Parcerias com Redes Sociais e Tribunais: O DFRLab estabeleceu parcerias diretas com plataformas de Big Tech (como a Meta/Facebook) e com autoridades do judiciário brasileiro para atuar como “auditor” de discursos políticos nas redes sociais. Sob o pretexto de combater a desinformação, o extremismo político e os ataques às instituições democráticas, o DFRLab atua na definição de algoritmos de censura e na derrubada de perfis.
A Armadilha do Conceito de Extremismo: Academicamente, a atuação do DFRLab cria uma perigosa zona cinzenta: ao equiparar discursos políticos dissidentes ou críticas ácidas às instituições a “táticas de desestabilização híbrida ou extremismo”, o think tank fornece o arcabouço para a criminalização do debate político. Essa dinâmica conecta-se ao debate da Lei Antiterrorismo no Brasil. Se a definição de “terrorismo” ou “ato preparatório de terrorismo” for expandida para incluir o ambiente digital (como o financiamento de atos interpretados como golpistas), o Estado brasileiro importa uma ferramenta de controle social desenhada em Washington.
3. American Enterprise Institute (AEI) e a Heritage Foundation
O AEI e a Heritage Foundation representam o núcleo do pensamento neoconservador e da extrema-direita em Washington. Eles são financiados por fundações familiares bilionárias e por setores do agronegócio e do petróleo norte-americano.
A Doutrina do Inimigo Interno e a Classificação de FTOs
Se o CSIS e o Atlantic Council operam em uma linguagem mais técnica e institucional (atraente para burocratas de centro-esquerda e liberais), o AEI e a Heritage Foundation utilizam uma abordagem de segurança dura, militarizada e ideologicamente polarizada.
Pressão por Inclusão na Lista de FTO: Foram pesquisadores seniores vinculados a esses think tanks (como analistas focados em segurança hemisférica) que formularam as minutas e os argumentos que embasaram os pedidos de parlamentares do Partido Republicano no Congresso dos EUA para que o PCC e o Comando Vermelho fossem oficialmente declarados como Foreign Terrorist Organizations (FTOs).
A Justificativa para a Intervenção: O AEI defende abertamente que governos latino-americanos de esquerda ou de centro-esquerda que não adotam políticas de encarceramento em massa e militarização ostensiva (como o modelo implementado por Nayib Bukele em El Salvador) são “Estados cúmplices ou falidos”. A literatura produzida por essas instituições justifica que, diante da “fraqueza institucional” do Brasil em conter o PCC, os EUA têm o direito legítimo de aplicar sanções econômicas severas, cortar linhas de crédito internacional e autorizar suas agências de inteligência a operar clandestinamente no território nacional para proteger a segurança do próprio hemisfério norte.
4. RAND Corporation
A RAND Corporation é, historicamente, o think tank de pesquisa e desenvolvimento oficial das Forças Armadas dos EUA. Criada originalmente pela Força Aérea americana após a Segunda Guerra Mundial, a RAND é a criadora dos modelos matemáticos, dos jogos de guerra (war games) e dos conceitos de redes descentralizadas que moldaram a estratégia militar ocidental.
A Doutrina da “Guerra em Redes” (Netwar) aplicada ao Brasil
A contribuição mais profunda da RAND para o cenário atual da segurança pública na América Latina foi o desenvolvimento do conceito de Netwar (Guerra em Redes), proposto pelos analistas John Arquilla e David Ronfeldt.
O Diagnóstico sobre o PCC: A RAND aplica o conceito de Netwar para demonstrar que facções como o PCC não são máfias piramidais tradicionais (como a máfia siciliana), mas redes horizontais, flexíveis, descentralizadas e com alta capacidade de regeneração tecnológica e financeira.
A Solução Proposta (A Destruição das Salvaguardas do Estado de Direito): Segundo os manuais da RAND, redes descentralizadas não podem ser combatidas com os métodos tradicionais do devido processo legal. Para derrotar uma Netwar, o Estado precisa se converter em uma “rede de contra-ataque”. Isso exige:
A eliminação de barreiras burocráticas entre inteligência militar e policiamento civil (militarização total da segurança pública).
O compartilhamento irrestrito de dados biométricos e financeiros em tempo real com agências estrangeiras (derrubada do sigilo bancário e de dados sem ordem judicial prévia).
A adoção de legislações de exceção que permitam o isolamento absoluto de lideranças e o uso de interceptações em massa de comunicações.
O Fluxo de Transposição Doutrinária: Como a Ideia Vira Lei no Brasil
Compreendidos os atores, a análise acadêmica exige desvelar o mecanismo de transmissão — ou seja, como um relatório publicado em inglês em Washington se transforma em um Projeto de Lei debatido na Câmara ou no Senado em Brasília. O fluxo operacional segue quatro etapas interdependentes:
│ (Produção de relatórios técnicos e dados assimétricos)
▼
[Seminários e Fóruns Internacionais]
│ (Atração de juízes, procuradores e consultores legislativos brasileiros)
▼
[Inserção de Cláusulas em Projetos de Lei Nacionais]
│ (Tentativa de reformar leis como a Lei Antiterrorismo)
▼
[Abertura de Precedente para a Extraterritorialidade]
│ (Perda do monopólio da força e quebra da soberania nacional)
A Captura de Quadros Técnicos (Burocracia de Estado): Os think tanks e universidades parceiras (como Georgetown) oferecem bolsas de estudo, convites para painéis e cursos de curta duração para o topo da pirâmide burocrática brasileira: jovens juízes federais, procuradores da república, delegados da Polícia Federal e consultores legislativos do Congresso. Nesses espaços, esses profissionais são expostos à doutrina do “nexo terror-crime” sob uma roupagem de “modernização e cooperação técnica”.
A Fabricação do Alarme Social e Legislativo: Ao retornarem ao Brasil, esses quadros técnicos utilizam sua legitimidade institucional para organizar eventos no parlamento (como o I Fórum de Segurança Regional e Contraterrorismo mencionado nas denúncias do GGN). O objetivo desses eventos é sensibilizar a classe política (geralmente leiga em geopolítica profunda) de que o ordenamento jurídico nacional está “desatualizado” frente às ameaças globais.
A Introdução de “Cápsulas de Exceção” Jurídica: Sob a assessoria técnica desses quadros, são redigidos Projetos de Lei ou Emendas a leis existentes (como as recorrentes tentativas de alteração da Lei 13.260/2016). Pequenas alterações textuais — como incluir o termo “atos de domínio territorial cometidos por facções” sob o guarda-chuva de atos terroristas — são inseridas silenciosamente.
O Gatilho para a Perda de Soberania (A Armadilha Perfeita): Uma vez aprovada a lei no Brasil equiparando o crime comum ao terrorismo, consagra-se a Dupla Incriminação. Se o Brasil reconhece formalmente que o PCC pratica atos terroristas e os EUA também o fazem, os mecanismos internacionais de bloqueio de bens, extradição sumária, quebra de sigilo tecnológico (como acesso a servidores de Big Tech) e, no limite, o uso de forças especiais para captura em solo estrangeiro passam a operar sob um manto de legalidade compartilhada. O Estado brasileiro, voluntariamente, abdica de seu monopólio da força e entrega a chave da sua soberania jurisdicional.
Conclusão
A investigação detalhada dos think tanks baseados em Washington demonstra que o perigo à soberania brasileira não se manifesta por meio de ameaças explícitas de invasão, mas através da colonização conceitual e jurídica do aparato de Estado. A tentativa de enquadrar o crime organizado brasileiro na Lei Antiterrorismo é a transposição exata da literatura produzida pelo CSIS, RAND, AEI e Atlantic Council.
Nesse contexto, figuras posicionadas na burocracia de bastidores do Poder Legislativo funcionam como os operadores necessários para traduzir essas diretrizes estrangeiras em textos normativos nacionais. O escrutínio público e o cancelamento de fóruns e eventos dessa natureza, evidenciam que a exposição do método é a principal ferramenta de autodefesa institucional que o país possui contra os vetores da Guerra Híbrida.
emerson57
30 de julho de 2026 9:48 amCreio que esse comentário deve subir (como ótima colaboração) para a página principal do GGN.
À cada ataque emanado do norte o Brasil deveria responder com aprofundamento (sem abrir mão da soberania) das relações com a China e com a Russia, BRICS.
Vimos no que deu a propalada neutralidade no caso das eleições na Venezuela. Sequestraram o Maduro e a cama já estava feita para o domínio ilimitado dos gringos.
O Brasil é o maior trofeu e o jogo evidencia vitória parcial dos adversários.
xupetinhas, tarçysios, bolçonários e outros tantos já entregaram o jogo.
O tetra do comandante Lula é um sonho distante.
Luis Celso Ferreira dos Santos
30 de julho de 2026 3:24 pmCOMO SE DIZ POPULARMENTE: FLÁVIO BOLSONARO ESTÁ ESTICANDO A CORDA. EM QUEM – OU NO QUÊ – ELE SE GARANTE?
Há um padrão que a história brasileira não cansa de repetir. A direita e a extrema-direita, quando chegam ao poder, quase nunca o fazem pela via clássica da persuasão democrática sólida. Preferem o atalho do bufão ou o atalho do golpe. Bufões já tivemos: Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro. Golpes de Estado, por sua vez, a lista é longa e conhecida demais para precisar ser recontada.
Em 2022, em espaço de tempo surpreendentemente curto, quatro expoentes estrategistas norte-americanos passaram pelo Brasil. Até hoje ninguém explica com clareza o motivo da visita. O clima, desde então, só se radicalizou. Em 2026 já não se respira o ar de uma eleição tradicional. Interferências estrangeiras atravessam o ambiente político brasileiro sob os mais variados pretextos. Dizem que, sob Biden, essa operação teria sido abortada. Agora, com o vento a favor de Trump, a corda está esticada até o limite.
Não se espera — e não se acredita — numa invasão convencional dos Estados Unidos. O que se vislumbra é outro roteiro, já ensaiado na vizinhança: Venezuela e Cuba. Bloqueios marítimos. Depois dos terremotos na Venezuela, os americanos foram os primeiros a chegar sob a bandeira do “apoio humanitário” e da “operação de socorro”. Estão lá, bloqueando, atrapalhando, enquanto o governo provisório leva a culpa. Uma esquadra americana, posicionada a distância prudente da nossa costa, poderia fazer o mesmo com os portos brasileiros com relativa facilidade.
O Brasil, porém, não é o Irã. E a nossa plateia — a população — não tem origem persa. Ainda assim, é preciso estar preparado. Não temos mais Biden. Mas — quer queiram, quer não — ainda temos Alexandre de Moraes.
E, como se dizia nos tempos em que a gente fechava palestra com a citação de um nome sonoro e inesperado:
“Como bem observou o estrategista Amadeu Torres de Aragão: quem estica demais a corda acaba descobrindo que o outro lado também puxa.”
June Brasil
30 de julho de 2026 6:53 pmSe não investigar, os parlamentares da extrema direita e seus agregados usarão esse “fórum” na campanha em outubro. Virá como proposta embasada pelos tais “especialistas”. Doutrinação estadunidense na veia, e se posta em execução, c o auxílio luxuoso do PIG e das BIG techs, será fácil retomar a prática do famoso lawfare para escolha dos alvos… A operação Sufocação político-econômica em cima do Governo já está em andamento desde o ano passado, c sanções e tarifas; agora partem do e com o CN, em ano eleitoral, ainda c presença do MPF… A AGU e a PGR deveriam estar nessa como instituições jurídicas; como entidades representativas do Brasil. Até porque, a maioria dos senadores têm interesses em enfraquecer as instituições brasileiras. Mais um motivo para que em outubro, a faxina pesada seja feita por lá, também. Bando de patriotas de araque que são! 🤢🤦🏼♀️